Aquarela de poesias

Aquarela de poesias
Poesias para você

domingo, 7 de outubro de 2012

RESGATANDO MINHAS LEMBRANÇAS

            
                    RAPUNZEL : ANOS 60.

Era uma adolescente 
Eram rígidos os costumes
Eu ouvia -era obediente -
Minha filha -não fume -

Eu ficava na sacada
Observando a paisagem
Vendo aquela gurizada
E suas molecagens

Não havia permissão
Para descer na calçada
Mamãe chamava atenção:
-Nada de ficar misturada

Um menino me olhava
Entre curioso e entediado
Valha-me Deus -eu rezava -
Mas não estaria a seu lado

Um dia em meu apartamento
Jogamos dama -encantados -
Mamãe permitiu o momento
Hoje, por mim, lembrado

Chico, era esse o seu nome
Deu-me um perfume e o talco
Via em seus olhos a fome
Mas a sacada era o meu palco

Era uma simples paquera
Mas nada se podia dizer
Ficou o sonho e a quimera
E meus pais a me proteger

Eu tinha cabelos compridos
Como Rapunzel e os trançava
Tendo o sentimento contido
As tranças nunca jogava

Era a única e desejada filha
Com cuidados especiais
Sentia-me quase uma ilha
Temente a Deus e aos pais

Quando prestei vestibular
Outro moço se aproximou
Joguei as tranças, sem pensar
E nelas, breve se enroscou

Entregou-se á sedução
Em meu corpo deslizou
Foi amor e foi paixão
Rapunzel se libertou

Chico não foi meu namorado
Anos após o vi na hidro
Olhou-me surpreso e assustado:
-É  Rapunzel da redoma de vidro


                           KATIA CHIAPPINI



             





  



sábado, 6 de outubro de 2012

RENÉ DESCARTES: PENSO LOGO EXISTO

                     PENSO LOGO EXISTO ?

Não sei se ainda existo
Se a mim reconquisto
Nem sei se sou benquisto
Nem que camisa visto
Pouco sei de tudo isto

Não rogo nada ao senhor
Nem creio mais no amor
Ele perdeu-se na dor
Deixou o vazio, o torpor
Revestiu-se de amargor

Nem sei se ainda penso
Não busco o bom senso
Nem a mim venço
Ando mais que repenso
Nem a mim convenço

Caiu por terra a verdade
Só existe a falsidade
Vinga só a maldade
Não restou a saudade
Nem aquela amizade

Se pensasse existiria
Mas vivo em agonia
O sentimento se resfria
Vejo a cadeira vazia
Não te vejo, nem podia

Tua toalha está fria
O travesseiro não te espia
O roupão está sobre a pia
Tua mala sumiu de dia
E de noite sumiu a alegria

Estou só e esquecida
Sem forças, sem guarida
Não reclamo mesmo sofrida
Mesmo sem rumo na vida
Ou chorando na avenida

Fiquei inerte, assim
Pensar dá trabalho -enfim -
Não rego mais o jasmim
Nem vejo da rosa o carmim
Mas ninguém pára por mim

Ser ou não ser ? -sinto dizer -
Nova premissa a resolver
Quando nova teia eu tecer
Vou meu pensar percorrer
Pra reencontrar o meu ser

Perdi de Deus a essência
Vou trilhar nova tendência
Suprir minha dependência
Encontrar minha efervescência
Justificar minha existência

                                      KATIA CHIAPPINI








sexta-feira, 5 de outubro de 2012

DIA 5 DE OUTUBRO !:

          DIA MUNDIAL DO PROFESSOR

        AOS QUERIDOS PROFESSORES !

Intrépido professor
É um lutador
Na lida desbravador
Fiel missionário
Aceitando o seu calvário
Com ou sem salário

Hoje vilipendiado
Quase sabotado
No sonho sonhado
Ensina por ideal
É um ser irreal
De fibra e sem igual

Sem eco e autonomia
Frágil qual boia fria
Desafia o dia a dia
Quantas vezes baleado
Pelo desqualificado
Viu seu saber castrado

Transita entre espinhos
Roupas em desalinho
Tímido e estranho ao ninho
A educação padece
O ensino enfraquece
E a violência prevalece

Que pouca vergonha !
Alguém se proponha
Enfim se disponha
Breve a colaborar
Para os direitos resgatar
E aos mestres apoiar

Não é um mestre-sala
Mas prepara sua ala
Veste ligeiro o seu pala
Desfralda sua bandeira
E queira ou não queira
Escala e vence a ladeira

Seja filho ou neto
Não se mostre inseto
Não dê o seu veto
Antes torne-o eleito
Nesse ou naquele pleito
Resgate o seu respeito

Faça logo esse tema
Diga não ao esquema
Conteste o sistema
Ninguém o sequestra
O mestre é mola mestra
Regente de uma orquestra

Não se deixe ficar quieto
Conserve o livro aberto
E o professor por perto
Abra os olhos para ver
Não deixe o vento varrer
A sala de aula e o saber

Seu fim não é a cobiça
Luta só por justiça
Como primeira premissa
Mas sabe que deixou a selva
Para aterrissar na treva
Qual triste Adão, triste Eva

Não permita que a internet
Substitua o seu valete
E nem queira ser a vedete
É o mestre que aperta o passo
Para lhe dar seu abraço
E lhe doar seu cansaço

                                  KATIA  CHIAPPINI

UMA SINGELA MAS CARINHOSA HOMENAGEM AOS DESTEMIDOS E DETERMINADOS PROFESSORES QUE SE INSEREM NA SOCIEDADE COM FORMADORES DE OPINIÃO
E GRANDES DIVULGADORES DA CULTURA.





quarta-feira, 3 de outubro de 2012

MEDALHAS :2

               MEDALHA DE ESTIMAÇÃO

Quem a conheceu dela se aproximou e reconheceu sua bondade.Tinha um belo sorriso, voz firme, um jeito carinhoso de ser Dinâmica, aos 80 anos. Ocupava-se das lides domésticas com esmero, aos netos, às orações diárias. Essa era minha avó: D. Glória
Sua liderança também se exercia na profissão de meu avô a quem auxiliava na farmácia. 
Vovó costumava mencionar uma medalha do Sagrado Coração de Jesus, que conservava pendurada no pescoço. Era uma relíquia de família, de ouro 18, com dois pequenos brilhantes e duas pedrinhas de rubi. Pertencera a tantos antepassados que já se perdera a noção do tempo que estava na mesma família. Minha vó invocava o Sagrado Coração, todos os dias, pedindo que olhasse por todos nós. 
Vovó morava em Santana do Livramento onde eu e meus primos passávamos as férias escolares. Quando meu avô faleceu fui vê-la, de imediato.  Choramos abraçadas, pois, eu e meus avós éramos muito unidos. Meu avô me dedicava especial atenção porque eu levava vovó onde quisesse ir e procurava estar perto de sua cadeira de balanço, onde permanecia, após terminada a lida da casa.
O primeiro bispo do Rio Grande do Sul foi meu tio distante e crescemos ouvindo dizer que o fato de existir um bispo em nossa família nos daria uma bênção especial até a oitava geração. Ele se encontra sepultado na catedral de Porto Alegre, onde se avista uma cadeira vermelha, junto ao altar e que foi comprada para o seu uso.
Chamava-se Feliciano José Rodrigues de Araújo Prates, primo de minha avó. A mãe do tio bispo já usara a medalha que agora pertencia a minha avó.
Quando vovó veio a falecer dispensou-se o testamento por escrito. Os filhos se reuniram e já sabendo das disposições de minha avó partilharam seus bens na mais perfeita harmonia.
Ao pender a cabeça sobre o ombro de uma das filhas, vovó sentindo-se fraca, sem nenhum gemido, olhou para ela e sussurrou ao morrer :
-A medalha do Sagrado Coração é de minha neta Katia. Pouco depois eu recebi de minha mãe ,sua filha mais velha, a medalha que me fora presenteada no leito de morte. Pequenos gestos que tive para com minha avó ficaram guardados em seu coração. A medalha
foi  a prova material de seu apreço por mim. Lembrei-me de que  ouvira meus primos e tios indagarem sobre quem receberia a medalha de vovó e, na época, nem dei atenção a isso. Mas lembro-me de que vovó dava seu mais belo sorriso como resposta. 
Ao colocá-la em mim senti a energia de vovó e mentalizei que me desse proteção nos momentos de conflitos íntimos, a mim e a minha família. O Sagrado Coração já está comigo, faz alguns anos. E está nas minhas preces e junto ao coração.
Pode parecer falta de lucidez, excesso de imaginação, ilusão ou motivo de estranheza, mas o fato é que creio na força e na vibração da medalha. E essa fé se confirmou por ocasião do fato que passo a narrar :
-Vou compartilhar com vocês.
Certa ocasião preparei-me para ir às compras, como de hábito. Uma hora depois voltei portando várias sacolas em cada mão, deixando a bolsa pendurada pela alça em meu ombro direito. Andei em direção à casa percorrendo algumas quadras em linha reta até dobrar uma esquina onde deveria descer a lomba íngreme. Desci metade dela e senti uma presença ,atrás de mim, como se surgisse das sombras, sorrateiramente. Virei-me, assustada, mas controlada. Um homem alto, maltrapilho, fixou-me o olhar. Rapidamente, tratei de esboçar o meu melhor sorriso e desejei do fundo da alma  que esse fosse o do melhor momento, meu único escudo, depositário da crença , que ainda conservo, na ternura do ser. A seguir toquei-lhe o ombro com firmeza e disse :
- Com licença, preciso prosseguir.
Enquanto eu dizia essas palavras tratei de tirar de uma das sacolas um saco de leite e outro de pães, depositando, ambos, nas mãos do homem. Ao levantar a cabeça, percebi, ao erguer os olhos, os seus olhos fixados em minha medalha e em meu rosto. Certamente estava surpreso com meu tratamento. E, sem tirar os olhos da medalha, desceu correndo lomba abaixo, nervoso, falando alto e vociferando blasfêmias. A certa altura, parou perto da parede, junto à calçada e bateu com a própria cabeça e logo depois soluçou. O choro chamou a atenção dos transeuntes e no rosto do homem  havia um misto de dor e desespero, ou mesmo, arrependimento, por não ter roubado minhas sacolas. Um senhor bem vestido, com físico avantajado e aparentando ter  coragem, a tudo observava. Dirigindo-se a mim falou  :
- Estava a ponto de interferir e dar uma surra naquele homem se tentasse roubar suas sacolas.
Agradeci ao senhor e fui para minha casa, aliviada e surpresa. Respirei fundo, para relaxar, lembrando da explosão do homem e do seu desaparecimento logo depois.Tanto minha bolsa como as sacolas estavam intactas.
Apertei a medalha entre as mãos, agradecida, invocando a proteção do Sagrado Coração, do tio bispo, de minha vó Glória. Fiz uma prece, apertando a medalha, desejando que todos os santos olhassem para aquele coração sofredor. Fiquei a imaginar o que teria passado pelo pensamento de meu quase agressor para que não levasse nem minha bolsa, pendurada displicentemente no ombro e com a alça distante do corpo. E aquele olhar dele me deu um sentimento de pena e de uma quase tristeza.
Desejei, ardentemente, que encontrasse uma nova perspectiva de vida e a si mesmo, num novo caminho. 
Que encontrasse, antes, um pequeno fragmento da centelha divina
que habita em todos nós. Ela é um presente de DEUS e recebemos ao nascer.
Que o homem sofredor de minha história possa encontrar algum alento para sua alma atormentada porque me pareceu que guarda um pequeno núcleo de pureza em seu interior, em sua essência.


                         KATIA CHIAPPINI


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

DESCULPE-ME !





                    A  POESIA QUE NÃO LI !

Os avanços dos gênios da ciência e tecnologia e de mentes privilegiadas que se dedicam aos demais campos do saber, pouco contribuem na aquisição de valores cristãos. O homem descobre outros mundos mas continua a não entender o seu próprio. Os atos falhos provam que temos muito a aprender. Percebi, faz tempo, que as imposições da vida, em busca da sobrevivência, nos tornam seres alienados. Mas, sempre podemos nos arrepender e reconsiderar nossos atos. E a serenidade irá restabelecer o equilíbrio e devolver o bom senso.
Certa manhã, eu caminhava apressada, quando avistei um homem alto, magro, com gestos nervosos, balançando algumas folhas na mão. Ao chegar mais perto percebi que se tratava de um pequeno caderno que ele apresentava a cada transeunte. Apressei o passo.
Mesmo assim o homem veio em minha direção e disse :
-Senhora, leia e me dê uma força.
-Não repare, fica para outro dia.
Ao ouvir essas palavras o rosto do homem ficou triste.
Como se adivinhasse algo, voltei os olhos, consegui ler em letras grandes, o título da publicação. Lá estava escrito : - meus poemas -
 Fiquei desconfortável ao pensar que talvez o sustento de sua família viesse daqueles trocados que recolhia com os poemas. Tratava-se de um poeta de rua, ainda esperançoso, embora saiba que a desesperança se impõe a todo o momento. Fiquei também imaginando que uma parte do dinheiro seria para se alimentar, outra para imprimir mais cópias, outra para pagar as passagens e o restante para seu sustento. Assim, lamentei não ter lhe dado a devida atenção. A tristeza de seu olhar era a mesma do meu. Mas meu arrependimento não me serviu de consolo porque não retornei para adquirir os poemas. Se os comprasse, daria a ele um motivo para se sentir reconhecido, pelo seu empenho em escrever os poemas que vendia. Cada vez que deixamos de nos comover e prestigiar um poeta de rua estamos jogando fora os seus sonhos. As palavras ficarão nas linhas de um papel que envelhecerá sem cumprir o seu destino. E os poemas não produzirão frutos. E, mais do que isso, nos furtamos ao exercício de humildade e de solidariedade. Sem falar da prioridade que estamos dando aos bens materiais.
Questionando a mim mesma compreendi que se eu desse atenção ao poeta veria um lindo sorriso em seus lábios e essa imagem me faria bem. O dinheiro não traz o conforto que uma palavra amiga transmite. Prometi a mim mesma não incorrer no mesmo erro. Principalmente porque amo poesias e as escrevo para um seleto público que já se acostumou a lê-las.
A poesia que não li poderia ser a mais sincera; poderia revelar a ternura da alma de um poeta; poderia transmitir ternura e ser de uma inocência pueril.
A poesia que não li não deveria se transformar num fardo para mim, cujo peso alterasse minha consciência. Mas deveria e poderia se constituir numa lição de vida, na medida que me deixasse perceber e assimilar uma singela verdade: 
-Enquanto houver um ser sensível para expandir sua alma num poema, haverá um leitor incansável.

                                         KATIA CHIAPPINI


Dedico essa crônica a todos os poetas para que assimilem seus valores, cresçam em dignidade e não se arrependam de escrever jamais. E, penso que embora nem sempre sejam compreendidos, continuem a embalar os nossos sonhos e fantasias.
Afinal, o que seria da realidade se não fossem os sonhos ?
  

sábado, 29 de setembro de 2012

SOLTE-SE !

                      SOLTE-SE DE VOCÊ !

                              Você se prendeu
                              De mim se perdeu
                              Só se recolheu
                              Ainda nem viveu

                              Não a mim amando
                              A explosão buscando
                              O sangue fervilhando
                              O corpo se aproximando

                              Seu passo é de caranguejo
                              Olho você e isso vejo
                              Siga antes o cortejo
                              Vá atrás de seu desejo

                              Ele está presente
                              Bem a sua frente
                              Perceba  a dama carente
                              Essa que lhe sente

                              Quem nada arrisca
                              Não sabe ser isca
                              Nem o olho pisca
                              Só corre da pista

                              Quem teme o coração
                              Vive sua vida em vão
                              Não destila paixão
                              Não prende sua mão

                              Quem não vê os canais
                              Não encontra os sinais
                              Vive o nada mais
                              Se perde no cais

                              Ecoa a minha voz
                              A gritar por nós
                              Numa ânsia atroz
                              De ser sua a sós

                              Entre no chalé
                              Tome seu café
                              Abrace-me até
                              Acelerar com fé

                              Solte sua sorte
                              Meu corpo é seu suporte
                              Abrace-me de sul a norte
                              Sou do prazer passaporte

                              Navegue em minhas ondas
                              Descubra todas as sondas
                              Sou a sua Gioconda
                              Solte-se : não mais se esconda
                        KATIA CHIAPPINI
                       








quarta-feira, 26 de setembro de 2012

VULNERABILIDADE !

                SOLIDÃO E FRAGILIDADE

O arranjo foi proposto
A gentil anciã aceitou
Tudo estará a seu gosto
E pra outra cidade a levou

Com 85 anos e  vulnerável
Insólita proteção aceitou
Ele se aproximou - agradável -
Dizendo-se enfermeiro e ficou

Houve simples negociação
Prometeu zelar por seus bens
Mas vai tirar vantagens e então
Apoderar-se dos vinténs

Despediu, de imediato, as diaristas
E empregou as próprias irmãs
Essas não lhe perdem de vista
Já não se manda, embora  sã

Foi afastada das amizades
Tornou-se reclusa de si
Mas adotou nova realidade
Conformada como nunca vi

Como esteve fragilizada
Desde que enviuvou
As gentilezas premeditadas
Sem questionar aceitou

Diz que será bem cuidada
Nem analisa a situação
Estará, sim, acompanhada
De estranhos ao seu coração

As propriedades vão se perder
E o companheiro vai administrar
Em proveito dele vão reverter
E a anciã, carente, vai aceitar

Ainda assim crê que lucrou
Incoerência - vida insana -
Não vê que a solidão transmigrou
Para o interior que não engana

Vai partir longe dos amigos
Sem compartilhar seu viver
Levei-a para jantar comigo
Percebi -nada tenho a fazer -

                                     KATIA CHIAPPINI