Aquarela de poesias

Aquarela de poesias
Poesias para você

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

QUANDO

                                 QUANDO

Quando o coração pedir, lembraremos um do outro

Quando a saudade apertar lembraremos dos abraços

Quando a chuva vier iremos pular descalços

Quando o verão se aproximar perdoaremos as implicâncias

Quando a dúvida se pronunciar vamos rever os conceitos

Quando o galo cantar vamos preparar o mate

Quando o sentimento falar vamos ouvir a moda de viola

Quando nos banharmos no açude vamos pedir um carinho

Quando os pássaros se aproximarem vamos alimentá-los

Quando o gado desfilar no campo vamos tocar o berrante

Quando  a cachoeira, ao longe, murmurar e nos chamar

Quando os cavalos e cães voltarem da invernada

Quando o desvario espalhar nossas roupas pelo chão

Quando as travessuras do amor se intensificarem

Quando nossas almas estiverem pedindo paz

Quando concordarmos em não adiar mais a decisão

Tudo irá florescer na terra e nos corações

Todas as carícias serão feitas sem ninguém vacilar

Tudo o que construímos voltará a ter valor

Todos os leitos se cobrirão de pétalas de flores

Sol e lua se revezarão para nos iluminar

E nosso roupão. ao mesmo tempo cairá ao chão 

Quando, então, nossa paisagem se afunilará

Para sermos um ser único, a única visão

Quando nossos corpos se confundirão

Quando nosso cansaço será merecido

Quando nosso pouso será no mesmo leito

Quando profundos sentimentos se libertarão


KATIA CHIAPPINI

domingo, 4 de fevereiro de 2024

MINHAS VELHINHAS!

                       MINHAS VELHINHAS

    

Tenho um grupo de amigas de terceira idade que aprecia ouvir poemas. Sugeri a elas que poderíamos nos encontrar um dia por mês para ler meus poemas, já que minha coleção se avoluma.

Somos em 5 pessoas. Cada uma de nós comprou um licor, uma porção de nozes, outra de castanhas e completamos o cardápio com amendoim. 

Entre um e outro poema, nos revezávamos para interpretar o texto lido e tentar descobrir a intenção revelada nas pautas.

Uma das amigas queria ser a primeira a comentar o que ouvira, fazendo questão de me perguntar se estava correta sua interpretação.

Ficávamos lembrando detalhes de nossa infância e juventude, de nossos namorados, dos vestidos rodados, e tudo o mais que os temas abordavam com descontração e leveza.

O licor aquecia as tardes de inverno e uma lareira deixava o ambiente mais aconchegante.

Eu deixava em aberto a pauta do dia. Assim, quem quisesse declamar, dissertar sobre os temas, sugerir alguma ideia inovadora, podia se pronunciar e opinar.

Para mim era um motivo de satisfação apresentar meus poemas e pedir algumas opiniões que pudessem enriquecer os textos.

A cada mês era feito um rodízio  para oferecer a casa. 

Entre um poema e outro servíamos um chá com bolachas e fazíamos uma pausa para descansar a voz.

Para que todas interagissem, eu ia conduzindo nosso tema de casa e deixando algumas mensagens bem claras que os poemas sugeriam. E direcionando as participações de modo que seguissem uma dinâmica aceitável.

Ao ler um poema, sentíamos que voltávamos ao tempo das fadas e duendes que nossa imaginação criava para nutrir a alma.

Ao entardecer deixávamos a louça lavada e cada objeto em seu lugar.

O tempo passava rápido mas era bem aproveitado. Estreitávamos os laços de amizade. Deixávamos o momento fluir e a imaginação viajar nas laudas poéticas.

Eu sugeria que em cada reunião alguém declamasse um poema de sua preferência, buscando Mário Quintana, Fernando Pessoa, Olavo Bilac, entre outros ilustres.

Assim, durante alguns anos, eu e minhas velhinhas comungávamos desse momentos interativos.

E eu sentia que a presença delas me trazia serenidade e gratidão.

Era feita uma troca de energia e todas nós saíamos fortalecidas desses encontros.

Minhas velhinhas já partiram para o outro plano. Mas, ainda preenchem meu coração porque deixaram presença na alma.

Sempre que quisermos amor, temos que saber nos doar para colher os frutos dessa dedicação.

Quem ama e ajuda o próximo, tem seu lugar reservado junto a Deus.

Que a poesia não deixe de brilhar em nosso interior.

Que as mensagens deixadas no poema possam ser acolhidas pelos homens de boa vontade.

Que o poeta seja uma eterna presença a nos encantar e fazer sorrir.



KATIA CHIAPPINI


 

POETAS

                                  POETAS


O poeta é um ser que lê o poema e se deixa ler por ele.  Ele vive de sonhos e os insere num mundo próprio que se transforma em um insondável labirinto.

O poeta se torna um exilado de si mesmo, busca o silêncio para escrever suas pautas .Nem percebe que se distancia das pessoas naturalmente. Percorre  países desconhecidos em suas laudas, e visita terras distantes que só os olhos da alma percebem com nitidez.

Podemos encontrar um poeta entre ilustres escritores, como no bar da esquina em rodas de boemia. Ele interage com a literatura, seja onde for.

O poeta tem  uma inquietude interior e seu manancial nunca se esgota, porque tira a poesia de qualquer detalhe que observa em seu dia a dia. Tira sua inspiração de um letreiro de parede, de uma palavra que ouve na rua, de um pensamento que chamou sua atenção.

O poeta vive rodeado de luz e sombras, porque sua imaginação se espalha entre nascente e foz, entre a água e o deserto, entre os raios de sol e as estrelas enluaradas. 

É provável que passe a noite escrevendo cartas para a amada, ou revisando um texto, ou alinhavando um soneto em sua rima e métrica perfeitas. Até que a exaustão o leve a deitar no travesseiro.

Se sofrer males de amor, podemos encontrá-lo num bar, triste e deprimido. Se ele beber além do esperado, passado o susto da bebedeira e seus efeitos, o poeta retomará o controle de sua vida.

Não somos fórmulas prontas e os deslizes são parte dessa roda gigante na qual vivemos, onde, ora estamos realizados e felizes e ora confusos em meio a um
labirinto de desafios.

Às vezes, o poeta não é entendido em seus anseio. Sente-se vulnerável num sistema que ainda não o valoriza como merece. 

O poeta luta por um lugar ao sol, entre dificuldades que o sistema impõe, entre o descaso dos governantes. Parece-lhe que ninguém fala a sua língua. É como se estivesse perdido no deserto ou no topo da montanha.

Mas, poetas não fazem a guerra, nem exercitam a violência. Poetas falam para os espíritos aflitos, para os seres confusos que aguardam uma palavra amiga.

Vamos entender a grandeza da alma do poeta e desejar que conquistem seu espaço e reconhecimento.

Ser poeta é ser um sonhador inveterado, mas preocupado também com a realidade que vislumbra em sua andança.

A sensibilidade do poeta pode mudar o rumo de uma vida. pode promover um exame de consciência e uma nova dinâmica no ser.

Poetas são amortecedores de uma crua realidade que nos oprime e desafia a todo momento.

Poetas são anjos que Deus colocou de plantão para harmonizar espíritos atribulados, promover a cultura, acolher nossos sonhos e quimeras.

Essa é uma missão inenarrável. Acredito que Deus escolheu seres especiais para serem poetas.

Queremos sua bênção, poetas.

Queremos seu abraço reconfortante e sua inspiração que se transforma em luz e esperança.

Muito obrigada aos poetas de todas as nacionalidades, raça, cor  que  itinerantes, percorrem  os caminhos mais profundos dos sentimentos dos seres humanos.


KATIA CHIAPPINI

sábado, 3 de fevereiro de 2024

A ÁRVORE

                             A ÁRVORE 


A árvore de minha infância ficava no colégio interno onde estudei por alguns anos.

Meu pai er funcionário do Banco do Brasil e era responsável por abrir novas agências em todo o território nacional.

O internato, foi naquele momento, a melhor opção para que eu prosseguisse com meus estudos.

Após fazer os temas de casa, as meninas podiam brincar no recreio e se ocupar de jogos de tabuleiro, pular corda, brincar de roda, jogar tênis de mesa, caçador , praticar corrida e outros esportes. Eu tinha meus patins e minha bicicleta no colégio, o que me trazia maiores oportunidades de lazer,

Mas, quando as freiras estavam recolhidas em orações, eu aproveitava para subir na árvore  que ficava nos fundos do imenso pátio da escola. E levava um livro para ingressar no mundo dos sonhos e quimeras.

Ouvia o canto dos pássaros, via as andorinhas em bando desfilar pelos céus, percebia a brisa batendo em meu rosto, desfrutava do momento do pôr do sol e do anoitecer trazendo a lua prateando a vegetação.

O sentimento era de paz, de tranquilidade e leveza.

Era possível meditar, fazer minhas preces, tentar um ato de contrição.

Esse era um momento em que o espírito se fortalecia e nova energia parecia fluir naturalmente.

Quando voltava ao convívio escolar,
as colegas perguntavam onde eu estava. Eu inventava alguma desculpa para não revelar meu esconderijo .Se o fizesse, correria o risco de ser proibida de subir na árvore. E esse era o melhor momento de meu dia.

A natureza pródiga em beleza sempre me encantou.

Os livros que acompanhavam minha pequena aventura, eram eivados de ensinamentos.

Eu lia poemas de Olavo Bilac, Cruz e Souza, Frenando Pessoa, Mário Quintana, Cassimiro de Abreu, Augusto dos Anjos, Cora Coralina, Gonçalves Dias.

Permitia-me memorizar alguns poemas para declamar para minhas colegas, durante o recreio. Elas se impressionavam e batiam palmas.

Todo esse tempo, em meu recanto secreto, tornavam meus dias mais vibrantes e acalentavam minhas ilusões de menina.

Esperava, com certa ansiedade, por mais um dia, por mais uma aventura, entre os galhos da árvore que me abrigava.

Pensava em meus pais. E quando a saudade apertava, eu levava papel e caneta para meu cantinho preferido. E lindas cartas escrevia para enviar pelo correio.

Essa é uma lembrança da infância que trago comigo bem viva e que representou, além de um contato maior com a natureza, a oportunidade de conhecer os grandes clássicos.

Hoje, já adulta, guardo na alma esses belos momentos, responsáveis por minha aceitação aos preceitos e parâmetros estabelecidos no internato, onde a disciplina rígida nos era imposta.

Agradeço a Deus por todos os momentos que me proporcionou e tento vencer os desafios inerentes ao ser humano. 

Deus nos ensinou a seguir em frente aceitando o fardo que colocou em nossos ombros.

Mas, de meu recanto secreto, guardo a certeza de que tirei a força que jamais sonhei, para toda a vida e suas andanças.


KATIA CHIAPPINI

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

ENSAIO POÉTICO

                          ENSAIO POÉTICO




Não roubo seu sonho

Talvez  roube o seu sono

Sou aquela que imagina

Ter ainda riso de menina 


Nuca preciso pedir

Mas, venha se quiser vir

Se eu lhe negar a senha

Aceite e então se contenha


Se brindar com vinho

Aceite-me no ninho

Dispo- me com coragem

Para ser a sua passagem


Envolver é uma arte

Para ser a melhor parte

Mas há o ponto cego

Decifre-o, além do ego


KATIA CHIAPPINI


segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

FILISOFANDO

                           FILOSOFANDO

Sabemos bem pouco da vida

Somos meros observadores

A vida nem sempre dá guarida

Somos, muitas vezes, desertores

A competição nos  desafia

Nem a achamos fundamental

Cada um tem a sua própria magia

Temos que ser apenas um desigual

Queremos merecer o respeito

Mesmo humildes ou itinerantes

Luxo e poder a ninguém dá direito

De ofender, de ter gestos aviltantes

Sábio é quem descobre a humildade

É quem supera banais futilidades

Ganha o céu quem busca a solidariedade

Quem se doa. quem constrói amizades

Entre o bem e o mal, que haja meio termo

Entre anjos e demônios saiba o que escolher

Já somos hoje homens inseguros e enfermos

Já nos restam poucas escolhas para fazer


KATIA CHIAPPINI

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

MINHA NETA DE 15 ANOS E ESSA VOVÓ DE 80 ANOS.

                                   Minha neta de 15 anos

                                  E

               essa vovó de 80 anos de idade!

Minha neta de 15 anos é notívaga e ama estender a noite com uma conversa descontraída, própria da adolescência. Ela estava na praia com uma amiga da escola que costuma convidar todos os anos. Quando a menina foi embora, minha neta, após o jantar, viu um capítulo de uma série comigo, desligou a TV, e começamos a conversar. Deixei que buscasse um tema para que definíssemos nossas opiniões.

Minha neta quis que eu explicasse se era possível aprender piano em qualquer idade. Queria que eu explicasse os principais passos para um bom aprendizado, como seriam os estudos de teoria e solfejo, quantas horas por dia seriam necessárias para a prática, enfim, todos os passos relevantes sobre o assunto.

Como eu ensino piano para a terceira idade, como também me apresento em eventos, minha neta quis saber um pouco mais e ficamos um bom tempo nesse tema.

 Logo que consegui um intervalo de tempo, foi minha vez de perguntar sobre seus interesses e aptidões.

Percebi que ela aprecia música, dança, gosta de dublar as cantoras da moda. E ama se dedicar ao Tecido, uma arte circense que pede um corpo preparado para executar acrobacias feitas num tecido especial e preso no teto, onda se deve subir para delinear lindos movimentos de difícil aprendizado, onde a força nos braços é fundamental.

Ambas desfrutamos desse momento e trocamos informações que tornaram esse bate-papo muito interessante,

Mas, entre uma intervenção e outra, entre surpresas e risos, percebemos que o mais importante nem eram os temas abordados, e sim, a tranquilidade e receptividade que houve entre essa vovó e sua neta.

Duas gerações tão distantes conseguiram se comunicar de modo tranquilo, com especial leveza, com cumplicidade e harmonia.

Esse diálogo não anunciado, transcorreu entre meia noite e quase às três da madrugada, sem que fosse interrompido.

Quando percebi o adiantado da hora, falei para minha neta que já estava com fome. E ela concordou em continuar nosso assunto em outra oportunidade, porque também iria tomar um leite morno. 

Tínhamos que ir para a praia com a família, pela manhã, sob pena de perder um banho de mar revigorante e benéfico para a saúde.

Antes de pegar no sono, percebi que tinha apreciado esse convívio noturno. E que minha neta esteve bem descontraída e atenta.

Esses são momentos de simplicidade plena que agregam muitos elos na corrente dos sentimentos. São detalhes e minúcias que nos enriquecem a alma e que acrescentam mais vida às nossas vidas.

Nesse mundo atribulado que vivemos, as famílias precisam voltar a dialogar com os filhos e agregar valores já esquecidos.

Minha neta nem imagina o prazer que me deu ao dialogar com essa vovó de passo mais pesado, mas que ainda conserva um raciocínio capaz de acompanhar os apelos da juventude.

Por essas razão, por esse fato ocorrido, volto a pensar que a simplicidade e a humildade, valem bem mais do que o acúmulo de bens materiais que escravizam o ser humano e roubam dele toda a ternura.

Um beijo e um abraço, minha neta, e obrigada por ter se despedido de mim, quando da volta ao lar, com tanto carinho e atenção e com a fisionomia radiante.

E quanto mais o tempo passar, mais nítida ficará essa lembrança em minha memória.

E, mais uma vez agradecerei a Deus, pelo convívio familiar, insubstituível e inigualável. 


KATIA CHIAPPINI